terça-feira, 13 de maio de 2014

Modelagem

por Daniel Ricardo Augusto Wood, em 23 de abril de 2014.
 
           Certo dia, lembrei-me daqueles jogos de “massinha de modelar”, aquela coisa plástica que as crianças utilizam para dar forma a coisas, que podem sair de suas memórias, de seus sonhos, dos livros que leem e, até, de lugares que a mente humana nunca visitou.
            Pensei como é impressionante esse singelo brinquedo, que consiste em dar asas à imaginação, enquanto se aprende certo grau de coordenação motora, algo de geometria especial; através desse simples jogo com poucas regras, pode-se conhecer e de fato elaborar modelos de um imenso número de coisas.
               Devia ser obrigatório, por lei, massa de modelar nas escolas. Até uns noventa anos, pelo menos. Depois, tem-se de dar descanso ao sapiente. Se não aprendeu massinha aos oitenta e nove, difícil aprender então. Se aprendeu, já deu aulas e merece a aposentadoria para curtir, enfim, a própria massa encefálica.
Não obstante, ocorreu-me ideia que achei genial. Não minha, decerto; alguém já teve essa ideia, mas não me lembro de tê-la lido.
           Se dessem ao Congresso Nacional um suprimento inesgotável de massinha de modelar, estou convicto de que as leis seriam melhores, mais justas, mais dignas; e, talvez, grande número de “representantes”, do povo e dos estados, perceberiam que a dinâmica das leis exige mais ainda do que essa reflexão com as cores, as formas, as combinações de energia e matéria, para fazer a pacificação social e perseguir o objetivo máximo do Direito, que é a Justiça.
                De se concluir que massa de modelar pode fazer um ordenamento jurídico melhor, e, desse jeito, poder-se-ia obrigar mesmo o Poder Judiciário, inteiro, a usar essa substância elástica e maleável, pelo menos quinze minutos por dia.

domingo, 4 de maio de 2014

Uma frase gostosa de ouvir

Se há dias em que você sente que está cego e nada vê do que está à sua volta, pode acontecer de alguém se aproximar.
Pode ocorrer que você queira saber quem é.
Se a frase ouvida em resposta for essa, em qualquer língua, certamente será digna de trilha sonora.

Ei-la aqui

domingo, 16 de março de 2014

Ulisses

Transcrevo aqui, pela relevância que dou ao tema do herói na formação da personalidade, o final do poema de Tennyson, Ulysses (http://www.poetryfoundation.org/poem/174659):

that which we are, we are;
One equal temper of heroic hearts,
Made weak by time and fate, but strong in will
To strive, to seek, to find, and not to yield.

Aquilo que somos, somos;
Uma mesma têmpera de heroicos corações,
Enfraquecidos pelo tempo e pelo destino, mas de vontade forte
Para se empenhar, buscar, encontrar, e não se render.

A Odisseia (história do retorno de Ulisses, depois da Guerra de Troia), faz uma belíssima metáfora do caminho que tem o herói a percorrer, para retomar, na maturidade, sua vida de maneira organizada.


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Dúvida


Que somos nós?
Um instante de lutas,
outro de incertezas,
talvez um momento de glória.
Uma pitada de amor aqui e ali,
para temperar;
Lágrimas, para não secar a mistura.
Se a vida nos sorri, somos espelho;
se não, somos tristeza, tal e qual reflexo.
O saber consiste, pois, em questionar
as qualidades do vidro e da substância refletora;
perceber, pelo olhar,
pela inspiração, 
pela expiração,
os momentos que passam,
sua história e o que predizem.
Viver;
morrer.
Transformar-se.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Biblioteca Virtual Editora Clássica

Estão disponíveis para download (formato epub, que pode ser lido com Adobe Digital Editions) gratuitamente, através do website da Editora Clássica, uma série de publicações atuais em Direito Empresarial e Cidadania, com temas que passam pelo Direito Constitucional, Direito do Trabalho, Direito Civil, Direito Penal, sem esgotar a lista de ramos e possibilidades.
Uma das obras, de minha autoria, é "Proteção à Dignidade da Mulher Face à Lei Maria da Penha", em coleção coordenada pelo Prof. Luiz Eduardo Gunther e pela Professora Viviane Séllos Knoerr. Outra, em que participei publicando um capítulo, é "Fundamentos Econômicos do Direito Empresarial e Impactos Sociais: Uma Questão de Cidadania Empresarial", coordenada pela Professora Viviane Séllos Knoerr e pelo Prof. Paulo Ricardo Opuszka.
Grandes professores e acadêmicos do Mestrado em Direito Empresarial e Cidadanida pelo Unicuritiba estão presentes em todas as publicações.
As obras estão publicadas e atualizadas até julho de 2012.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Paixão nos adolescentes de antigamente

Sem grandes pretensões, depois de ler Saramago em sua "Ilha Desconhecida" (apresentado por minha esposa) e meio que tomado pelo estilo e pela reflexão desse grande autor da língua portuguesa, pensei em algo que pudesse se aproveitar da forma de Saramago refletir para falar a respeito do amor e do modo como um dia foi, entre adolescentes, a relação amorosa (dificilmente parecido com o que é hoje; embora existam os fundamentos, a forma como se manifesta certamente não se assemelha na imensa maioria das vezes na atualidade).
Enfim, eis. Espero que divirtam-se os leitores; os mais velhos, creio, entenderão a que me refiro.


Paixão à Saramago

por Daniel Ricardo Augusto Wood, em janeiro de 2010

Num belo dia, virou-se o rapagote para a moçoila, e disse: “amo-te”.
Era pelo menos um dia que deveria ser belo, pela importância da frase dita.
Não era um dizer qualquer. Nem viera assim, do nada.
Primeiro teve que andar corredores a fio, para encontrá-la. Sentiu-se naquele dia como um peregrino. Pareceu-lhe que andara quilômetros pelo deserto, tonto, sem água, sedento, sebento mas estranhamente seco, quando chegou a seu oásis, mentalmente cambaleante.
Era obviamente novo demais para planejar o amor.
Não tinha muito que dizer, a não ser que a amava.
Conhecera essa menina num dos corredores da escola; era uma visão, uma visage, se em francês ficar mais romântico e mais belo, embora tal e qual fantasioso.
As fantasias, inclusive, assumindo ar maior do que qualquer realidade, impulsionavam esse garoto.
Até seu nome na lista de chamada escolar assumia colorido diferente, porque depois de o chamarem vinha, um pouco mais tarde, o nome dela: descobriu-o porque, no ímpeto de conhecê-la, de saber tudo dela, importava antes de mais nada saber qual o nome que calhara àquela beleza que superava a Julieta de Romeu e desafiava a Vênus no Olimpo, dando trabalho às musas.
Assim que era imperativo ir à escola todos os dias. Nesse aspecto o amor de fato constrói, pois obriga o amante a procurar atento todos os lugares onde essa amada se encontra, e assim aquele que ama cria no mínimo uma perspectiva sobre tudo à sua volta, que sem dúvida toma por base a medida de sua paixão.
Ao ver pela primeira vez a moça a quem amaria, tropeçou nos degraus da escola e seus livros, sua mochila, seu caderno, seus lápis e canetas e, por fim, seu orgulho, caíram todos de uma só vez. Era o primeiro dia de aula e, embora conhecesse a escola há alguns anos, agora parecia que tinham pintado as paredes, ou talvez instituíssem algum prêmio para os bons alunos.
Era provavelmente isso: um prêmio para o bom aluno, o amor da mais bela ninfa no jardim em que se apreendem – porque ali se ministram – alguns dos modelos para o que virá, mais tarde, a se chamar “vida adulta”.
Ora, que diabos. Ou melhor, com os deuses! Se esse amor não era suficientemente adulto para senti-lo, inteiro e avassalador, no corpo jovem, indo em linha reta e inúmeras curvas – pois sem elas seria impossível sentir tudo isso – do coração e da alma daquele sujeito até tudo que poderia designar o ser daquela menina, mulher, objeto de adoração e desejo, então o que seria adulto, e o que afinal seria amor?
Era amor sim, e das gentes grandes; pois, a demandar bravura e ação, não poderia ser outra coisa. Mas decerto que a escola foi pintada, porque, afinal, estava mais bonita.
Um pouco antes do início das aulas, possivelmente, o diretor soubera que Zeus enviaria uma de suas filhas, a mais formosa, recém-criada – talvez estivesse aborrecido com a beleza imutável de Afrodite e resolvera fazer e enviar à Terra esse símbolo de eterna formosura, apenas para tentar a pequenez da alma dos homens e afirmar sua divindade sumamente criativa e esteticamente perfeita – e prestes a arrebatar o coração de, pelo menos, este jovem que sentia ferver-lhe o sangue nas veias tão logo o vento lhe trazia o perfume dela no ar, antes mesmo de ela virar a esquina no corredor e dar-lhe o ar de sua beleza, aquela brisa inspiradora que o deixava boquiaberto, taquicardíaco.
Era, de cara, motivo para vir à escola, acordar mais cedo, usar impecavelmente o uniforme; o espelho de casa agora tinha importância maior, pois viria a calhar para uma auto-crítica que visava um olhar mais específico. Não era questão de ser pavão para muitas, mas de mostrar as próprias penas para uma só. Dirigia-se-lhe a partir de então toda a plumagem de uma ave pronta a defendê-la contra todos e quaisquer outros predadores, pois destinada a ser sua, tivesse o Criador essa sorte grande lançado a quem quer cumprir seus deveres escolares com suficiente zelo, a ponto de merecer a lindeza e os favores de dama tão distinta, cujo nome a princípio nem sabia, mas era evidente que seria belo, fosse qual fosse o modo como ela se chamava; pois, certamente, seus pais lhe teriam dado nome de modo que se harmonizaria com aquela perfeita simetria de curvas, aquele arranjo magnânimo de olhos, cabelos, boca, e vamos descendo, corando se ela se aproxima, suspirando se está ainda longe.
Prova de que Deus existe, desfilava ela, então, até a grata surpresa quando, seguindo-a atônito, descobre esse mancebo que ela está em sua mesma sala de aula; e aí é que as coisas se tornam maximamente importantes: escola, aula, uniforme, livros, é preciso estar na escola na hora certa, e até mesmo antes, de modo a ver o momento em que ela adentra os jardins da melhor, maior, mais importante escola do Universo. Que aliás ficou mais bela este ano, provavelmente pela pintura nova que lhe deram.
Que a amava, ele já sabia. Estava claro, evidente. Ela se tornara a inspiração para todos os seus dias escolares a partir daquela abençoada travanca nos degraus, na entrada do liceu. Dera-lhe aliás uma marca nos joelhos e nas mãos, cicatrizes para lembrar o abençoado dia em que a conhecera. Nem sequer praguejara ao cair, e não sentira dores, a não ser bem mais tarde, quando lembrou, depois da aula, chegando em casa, a imagem divina daquele lampejo de eternidade que cruzara sua frente sem cerimônia nem preocupação. Era sem dúvida amor, não poderia ser outra coisa.
Faltava agora dizê-lo a ela.
Então as coisas viravam um turbilhão. Sentir, já sentia. Estava predestinado, desde o momento em que primeiro a viu: se havia potencial para sentir a paixão, era hora de senti-la, haviam decidido os céus; e assim, aquilo que era potência se tornou ato, no que diz respeito ao sentimento.
Outra coisa era manifestar tal presença anímica – dessa avassaladora paixão – em verso; em prosa, se assim não fosse possível, por falta de rima, pelos tempos que não se importam mais com a criação poética em forma perfeita ou mesmo pela dificuldade de conciliar a vida estudantil, o amor brotado aos solavancos e os dicionários de língua portuguesa, ainda mais nestes tempos absurdos de acordo ortográfico que nos faz conhecer pelo menos uma língua portuguesa às expensas de todas as outras; hora de escolher com cuidado aquela concatenação de palavras que permitisse demonstrar à rapariga essa coisa ao mesmo tempo profunda e extensa, um lago que deveria parecer de límpidas águas, mas na verdade encontrava-se ainda, aqui e ali, turvo e avermelhado, tempestuoso pela exigência máxima de fazer amor em algum momento entre o agora e o daqui a pouco... desde que, no mínimo, fosse recíproco, pois menos que isso seria o inferno e lançaria este muchacho nas profundezas tartáricas onde só resta sofrer os horrores de não ser correspondido.
Essa perspectiva, aliás, torna tudo mais difícil. Não fosse o amor, e seriam palavras fáceis de dizer; mas também não haveria, neste caso, a urgência em dizê-las, e justamente para quem talvez não as recebesse no tom esperado, projetado, desejado, caso no qual seria desgraça e não paraíso; então a deusa seria coisa demoníaca que lhe foi enviada dos lugares onde o sofrimento mais tortuoso seria capaz de rasgar o peito e tudo o mais, onde choro e ranger de dentes não seriam o bastante para fazer cessar esse amor bradado com toda a energia e, embora cheio dela, esvaziado com indiferença. Gelo que faz com que a pira onde tudo queima fique satisfeita em sua missão de consumir a alma.
Nesse caminho descompassado da imaginação, quando batia pelos cantos gélidos do amor abandonado, era miséria e já se via odiando o objeto amoroso, se é que tal era possível; porém, vendo-a passar, derretia antes que pudesse pensar se ela o via ou se ele, para ela, fazia parte da mobília.
Com muralha tamanha a ser transposta, era proporcional a relutância para falar, e daí muitas as justificativas para essa fisiologia que impede o súdito de, aproximando-se da princesa, portar-se como príncipe. É preciso um cavalo branco, uma armadura reluzente, espada polida, bainha adequada, e olhe que o cavalo tem que estar branco o suficiente para ofuscar a amada, de modo que ela, tomada não apenas de surpresa, mas por inteiro, não tenha outra alternativa a não ser, de imediato, retribuir a esse amor que não quer nada mais a não ser a completa aceitação e, sem demora, o mesmo ou maior amor de retorno.
Depois, quem sabe, uma festa, para comemorar; súditos pelo reino todo acorrendo para ver o encontro do Sol e da Lua.
Mas enfim passou-se o primeiro dia, apesar das cicatrizes nas mãos e no joelho; e o nome dela foi revelado, e associado com todas as coisas bonitas que se pode ver no caminho que vai da escola até a casa do apaixonado.
E depois de uma noite mal-dormida cujos sonhos consistiram em sobressaltos, ei-lo de novo, na porta da escola; agora, decidido a declarar aquilo que o move e que o faz mais forte que todos os homens daquelas redondezas.
Ela se aproxima; ele enche o peito, palavras preparadas, é uma frase curta, não precisa muito ensaio, é só contar até três, um, dois, três, e ela passou, depois de um cumprimento tímido, arrumando o cabelo que caía sobre o olho, abaixando a vista em seguida, abraçada ao próprio material escolar, suspiro, queria ser aquele livro, aqueles cadernos, e assim pensando lá vai nosso herói atrás dela, sem saber muito bem o que fazer.
Na hora de falar, algo aconteceu; assaltaram-no dúvidas às pampas, “e se ela não me ama”, ou pior: e se ela ama outro? Pior ainda, e se ela não ama ninguém?
Afinal, se ela amasse pelo menos alguém, quer dizer que talvez fosse possível arrebatá-la, arrebanhar seu amor para si; mas se nem isso, é preciso primeiro descobrir se é possível despertar o amor nela; em caso contrário, nada se pode fazer.
Poderia ser o contrário: que, não amando, seu coração esteja disponível para o plantio de um novo e tenro sentimento; aliás, esta solução é a melhor e ainda evita os chifres e as disputas pelo amor da linda. Mas é demais esperar que não haja conflito, mesmo que ela não ame a ninguém ainda. Pois é fato que muitos a amarão. É mais típico da mulher ser amada, e menos o contrário. No caso dela, ser amada não é apenas característico, mas mandatório, exigível não em parcelas, mas no todo e à vista, talvez até com juros por antecipação, tomando de todos ou no mínimo de muitos essa construção abstrata que faz da fisiologia humana um assunto à parte.
“Mas, e se ela não me ama?”
O caminho é longo até o destino da estudante. Os corredores parecem intermináveis, e cada passo, por mais largo que seja, parece incapaz de alcançá-la. Cada vez mais intransponível a distância, parece que as forças fogem do moço.
Cercam-na outros, e a multidão vai espessando a distância que os separa; cada um de seu turno quer roubar um pouco da virtude dela, e faltam armas ao nosso cavaleiro, o cavalo está do lado de fora da escola – não se pode entrar com montarias nas salas de aula, isso desde algum tempo, talvez fins da Idade Média.
Parasse ele para pensar um momento, e veria que é mais fácil que a mulher não o ame, principalmente depois de apenas vinte e quatro horas que ele se apaixonou. Afinal, talvez ela nem sequer o tenha visto. Talvez tenha dado aquele tímido “oi” para outro que se postara atrás dele nas escadas da escola, algum pretendente como ele, talvez mais bem aparelhado para a situação, um escudo mais reluzente, um cavalo mais adornado. Essa dúvida – sobre ser ou não correspondido – é uma das coisas mais cruéis que pode o inseguro espírito juvenil fazer consigo mesmo; porém, faz parte do amor cortês, com todos os seus nuances, pois, desde que o homem deixou de dar a paulada nelas para arrastá-las para suas cavernas pelos cabelos, elas se aproveitaram desse estado de coisas em que o homem nunca sabe se está fazendo a coisa certa; e fazem-no muito bem quanto mais belas são e quanto mais consciência têm de sua própria beleza.
Ainda mais quando se sabem amadas.
Mas agora é uma questão de honra, diz ele para si mesmo. “Se não falo com ela, outro poderá tomar meu lugar”.
E aperta o passo, até a porta de entrada onde se inicia a aula do dia, e é então obrigado a uma retirada estratégica – também pelo olhar atento do professor que o vigia, aguardando que se assente numa das cadeiras, já que todos os outros – a perfeição em forma de mulher inclusive – já estão esperando pela aula. E durante a retirada senta-se um pouco atrás dela. É melhor assim; se ela não o vê, não descobre facilmente que ele está atrapalhado com suas armas, e ele não se dá a revelar em suas feições heróicas enquanto ela está prestando atenção nas lições do dia, sobrando tempo para o pretendente recompor-se, analisando taticamente a situação.
Claro que deve mostrar que o melhor para ela é ele mesmo. Então, toca responder às perguntas do professor, rebuscando nos livros, mais rápido que os outros, interessado na matéria. Se foi bom aluno algum dia, isso passou, pois agora será o melhor, para conquistar o lugar no trono ao lado dela.
Os espelhos também parecem ter mudado de importância. Agora demonstram se o moço está com suficiente preparo físico para a ocasião de encontrar a donzela. Olhos nos olhos, quero ver o que você diz, se meu braço é de bom tamanho, se meu cabelo está bom assim; essa espinha no nariz pode não ser um item de especial interesse. Onde deixei a pomada para acne? Talvez o barbeiro da esquina possa dar um jeito nesse cabelo espetado. Enfim, talvez eu não precise ser o melhor homem, mas tenho de ser o melhor no amor.
“Talvez eu deva me aproximar dela mais devagar. Assim, dizendo meu nome. Como será melhor?”
Ensaia um cumprimento para o espelho: “olá, sou seu colega de sala, lembra?”
Esse “olá” parece ultrapassado. Que dizer em lugar disso? “Aí, beleza?”
Não, a beleza é reservada a ela. E esse advérbio de lugar situa aquilo que já está. Não serve como cumprimento. Afinal não quero que ela fique ali, quero que ela venha para cá. Depois, perguntar para ela se há lugar em sua memória para lembrar de mim pode parecer pretensioso.
“Oi, sou seu colega de sala”. “E daí”, ela pode responder.
Pronto, a frase inteira é inadequada, pondo a perder toda a relação que nem sequer começou.
Depois de refletir sobre o que falar durante três quartos do intervalo que dispõem os estudantes para o lanche, ele sai do banheiro ainda indeciso sobre como se apresentar à sua amada, e quase tropeça novamente ao vê-la passar com duas amigas. Elas olham para ele e riem, embora ela talvez nada tenha visto, seguindo altiva.
Esse tipo de coisa dura dias. Torna-se rotina. Conferir as notas no edital é motivo para estar perto dela. Preparar-se para a prova – afinal, se as questões do professor são respondidas em sala, também é obrigatório desempenhar-se bem nos exames; se não se é o melhor no futebol, deve-se pelo menos estar apto a recitar poesia para ela. Se ela não gostar de poesia, nem tudo está perdido; talvez ela goste de bombons, e se a mesada aumentar com as boas notas, os bombons ficam acessíveis.
Tudo, assim, é motivo, no amor, para melhorar na vida. E a melhora na vida, logicamente, deveria cientificamente conduzir ao que de melhor a paixão pode oferecer.
As horas na biblioteca são mais prazerosas quando ela está lá, principalmente porque há uma estante cheia de temas sobre as relações amorosas; embora, ademais, muito digam, não parecem saber o bastante para dar a fórmula perfeita da conquista daquela tão querida.
Como te aconteceu de passares tanto tempo no estudo, pergunta-lhe a bibliotecária, que o vê mais vezes que de costume; e ele responde citando Platão e seu Banquete, ou Dartagnan nos Três Mosqueteiros, ou, talvez, Nelson Rodrigues encarnando Mirna e respondendo cartas de amor. Essa literatura toda era necessária, embora insuficiente, para descobrir a frase que lhe daria o coração de sua amada, a frase infalível, que a faria cair em seus braços.
Muito disso era sem dúvida ininteligível. O que importava, porém, era ficar mais sábio no amor, com o fim de praticá-lo, no primeiro golpe, com a impossível certeza de atingir o alvo, e arrebatar a alma da menina.
No final das contas, importa mesmo não dizer à bibliotecária que está apaixonado – e mais, revelar às fileiras do adversário o nome de sua amada antes que tivesse tempo de ele mesmo defrontar-se com ela na luta pela conquista de seu coração.
Mas enfim, passam-se as horas e os dias; e num tempo que parece ser mais de sol que de chuva, um arco-íris no jardim da escola, no intervalo de aula, com um refrigerante na mão e um sanduíche na outra, matutando em sua paixão solitária o que fazer para mitigar essa espera, ele foi enfim cutucado.
Acordando de súbito de sua letargia, está justamente a catucá-lo sua amada, que o faz engasgar e tossir, um pedaço de pão preso na bifurcação de caminhos entre o estômago e os pulmões; e quem o salva é justamente ela, com um tapão nas costas, e lá está ele, ainda segurando o refrigerante, duas tossidas a mais, olhos vermelhos, e assustado olhando para ela.
Oi ela diz, oi ele responde, como vai ela pergunta, vou bem, eu acho, replica ele. Soando estranha sua própria voz saindo quando ela fala com ele, pois parece que agora ele é um espectador que observa a conversa de si mesmo com ela, enquanto deslinda a formosura da moça para o filme mudo que se passa no palco de seus desejos.
— O que você está comendo?
— Eu? Bem, um sanduíche de frango. Quer? – ele oferece sentindo-se ele mesmo um frango, canibalizando sua espécie, faltando-lhe a coragem para falar qualquer outra coisa, será que vai chover, será que a prova será difícil, será que você quer casar comigo, quem sabe pelo menos namorar, sei que não tenho emprego ainda, mas um dia vou trabalhar, tentei escrever poesias para você, mas depois de ler Fernando Pessoa tudo ficou mais difícil. Seu pai será ciumento?
Ela sorri; seus dentes parecem ter ficado ali por uma eternidade, alvos, alinhados, delimitados pelos lábios. Poderia estar respondendo a tudo com esse sorriso; mas talvez seu pai seja de fato ciumento, embora umas lambadas não possam matar a um apaixonado.
— Não te vi jogando futebol – responde ela, sem aceitar nem recusar o sanduíche. Talvez seja vegetariana. Enfim ele já não tem mais fome, o refrigerante numa mão e o sanduíche na outra, desarmado, incapaz de se defender.
— Estudo. Biblioteca. Fico grande parte do tempo lá por estes dias.
— Ah? E você tem lido o quê? Matemática, física, química, biologia?
Tudo que tiver a mínima relação com você, ele pensa, mas não é o que responde.
— Recentemente estava lendo algo de Roland Barthes, do como ele descreve o discurso amoroso, do modo como uma mulher amada assume os contornos de ser que está além do que pode ser medido, sentido, pensado...
Mas não é isso também o que ele responde.
— Na verdade, eu estava tentando entender algumas coisas que têm me parecido um tanto difíceis.
Não foi mentira. E a verdade vos libertará, mas se eu a disser por inteiro, ficarei mais aprisionado do que já estou, é o que ele pensa, e esse pensamento guia sua atitude.
— Ler é maravilhoso, não? É um prazer muito agradável.
Ela diz isso e um raio lhe ilumina a fronte, mais bela que nunca, dando sentido à biblioteca, fazendo-a brilhar como um pinheiro de Natal. Afinal, esse esforço de leitura é mais compensador do que parece.
— Você gosta de ler também?
Pergunta idiota, ele pensa. Claro que ela gosta, ou não teria dito o que disse antes. Mas é preciso continuar a conversa. Talvez remendando a última frase.
— Digo, o que você gosta de ler?
— Além das matérias da escola? Poesia, para começar.
Passam-lhe diante dos olhos Drummond e Vinícius, mas ele não sabe ainda o que dizer; afinal, ela é mais bela do que Vinícius e Drummond. Os poetas que me desculpem, mas a beleza dessa princesa é fundamental.
— Belíssima.
— Como?
Responder rápido ou se entregar.
— A poesia. É belíssima, sem dúvida. Em cada coisa uma maneira de amar, uma espécie de ato de amor pela vida.
Até que saiu bonito. Ela sorriu de novo.
— Esta escola é bacana, não é? A turma recebe os novos alunos muito bem. Pensei que ia ser mais difícil me adaptar aqui.
Não pode ser penoso para beldade como a sua atravessar nenhum túnel escuro, com sua luz, com seu brilho, é o que ele pensa.
— Que bom que você gosta, eu estudo aqui desde pequeno.
Como se já fosse grande, mas talvez ela não se importe com minha resposta, rezo aliás para que minha fala não me transforme em sapo muito rápido.
Você é a estrela mais bela que fulgura nos céus da minha vida, e esse pensamento pode parecer cafona mas é verdade, só que por via das dúvidas é melhor não falar.
Ela sorri novamente, desta vez um tanto amarelo.
— Deixa eu te perguntar uma coisa?
Tudo, pergunte tudo. Eu te darei os céus meu bem, e o meu amor também, e soaria melhor escutando Roberto Carlos.
— Diga – e essa resposta resume o parágrafo anterior sem mostrar tudo.
— O que é um pleonasmo?
Ele pisca, uma, duas vezes, e se pergunta se é capaz de representar o saber para tanta beleza; mas, dada a chance, melhor não hesitar em demasia.
— É um circunlóquio, uma circunlocução.
Agora ela é que tem os olhos estalados. Melhor explicar mais.
— Alguns podem também pensar como uma superfluidade, uma inutilidade.
Pausa para vê-la suspirar.
— Mas vem do grego pleonasmós, que significa superabundância, e chegou à nossa língua através do latim que absorveu essa palavra, que representa uma redundância de termos que em certos casos têm emprego legítimo, para conferir à expressão mais vigor, ou clareza.
Mais suspiros; mas cabe não perder de vista a explicação, “ou ficará ela suspirando sem entender e eu suspirando de amor sem ter a correspondência que pretendo”.
— Quer um exemplo?
Ela sorri e acena que sim com a cabeça.
— “Vi com estes meus olhos que a terra há de comer”.
“Vejo você com meus olhos e te vejo e te vejo, e te adoro quanto mais te amo e te amo quanto mais te adoro, sendo até um pleonasmo esmaecido pela dificuldade de representação da extensão do meu sentimento”. Mas se eu disser isso, talvez sejam as últimas palavras que endereço a ela. É preciso, no amor, não sufocar a presa – “pelo menos é o que dizem os autores, já que eu com certeza, no dia em que a abraçar, não a largo mais”.
— Sinto claramente sentido o sentimento que me atravessa o coração.
Agora é ele que arregala os olhos, como se visse a lua florindo.
— Como?
— Um pleonasmo. Uma espécie de repetição que tem por sentido avivar o que se quer descrever. Não é o que você queria explicar?
Um segundo, dois. Demora mais para entender o que ela diz, pois é preciso prestar atenção nela e na beleza dela. Tem-se que dividir a concentração de modo tal que seja possível entender o assunto sem perder a verdadeira inspiração – ela mesma – de vista.
Afinal, é preciso vê-la, com seus olhos, sua respiração, seus cabelos, seus gestos, seu corpo, tudo o mais que inspira a poesia e transforma um adolescente espinhento em um super-herói com capa, espada, cavalo e armadura. Mas para não perdê-la é também preciso interagir com ela, ou ela sai sem entender o que se passa. E toca gastar energia para compreender o que deveria ser simples.
— Isso, isso; mas você dizia um pleonasmo ou descrevia seu sentimento?
Ela sorri, desta vez com um misto de pureza e malícia, se é que isso é possível. Deve ser algo como café com leite, ou talvez feijão com arroz, uma mistura perfeita para o paladar e talvez ininteligível, se tiver de ser analisada além do sabor, algo como pensar uma vaca abraçada em um cafeeiro ou feijão crescendo nos pântanos dos arrozais, ou o grão de feijão e o grão de arroz crescendo no pé de feijão e pedindo por cebolas com bacon para temperar a relação.
— Sentir sentido é um pleonasmo, não?
Ela não se deixa enredar fácil; mas para nosso ingênuo experimentador dos sentimentos, que caiu na rede muito antes de nossa heroína tê-la armado – ou melhor, atirou-se a ela, como súdito e como sujeito, mas não como príncipe, uma vez que ainda tem de conquistar o reino – as coisas não são tão perceptíveis. Basta dizer que, aos balbucios, mais que com a certeza que se espera de um homem relativamente maduro, ele responde.
— Humf, sim, sim.
E então é um impasse. Ele tem o que dizer, mas não sabe se deve fazê-lo; ela a ouvir, mas ele não tem certeza do que ela quer ouvir. A juventude e os primeiros amores são assim. Se, como a Emília de Monteiro Lobato, nascêssemos com malícia suficiente para entender as coisas, muitos dos fatos da vida seriam abreviados e resolvidos, mesmo antes que acontecessem. Imagine, por exemplo, matricular o filho na universidade em que ele estudará ainda quando ele se encontra no jardim de infância, porque ele decidiu que estudará Direito, ou Medicina, Engenharia. Muito pior poderia ser se uma criança dessas decidisse muito cedo que seria um bandido dos piores! Mas pela graça do Bom Criador, os seres humanos não são assim: eles nascem com o Universo inteiro diante deles; não estão propensos a coisas singulares a não ser dentro dos limites de sua concentração, que não é muita quando são novos, mas é poderosa na medida em que estão apaixonados.
É o que impulsiona o rapaz e o deixa tão confuso quanto atraído pela moçoila diante de si, que ainda sorri, mesmo depois de tanta divagação de nossa parte.
Melhor, aliás, mudar de assunto rápido. Esta é uma idéia que poderia ter vindo antes de tanta hesitação.
— Subir para cima, descer para baixo. A língua tem coisas interessantes, não? Li em um livro no sótão de minha casa que a palavra pode ser bênção ou maldição.
— E o que isso significa para você?
Ela é mais bela ainda com toda essa inteligência. Mas o menino não se dá conta de que ela quer saber dele; apenas pensa que tem a chance de se tornar mais importante para ela.
— Acho que tem relação com o que está escrito nos Evangelhos. São sabedoria, não apenas religião. Todas as religiões contêm sabedoria.
— Ao que se refere?
— No que diz respeito à palavra, está escrito que nem só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca do Senhor, seu Deus. Isso quer dizer que aquilo que se fala, se cria. E que aquilo que criamos pode ser bem ou mal e dar vazão ao que há de bom e o que há de mau em nós e nos outros.
Agora é ela que suspira, e coloca a mão no queixo enquanto se senta no banco mais próximo.
Cortês, como é de se esperar de quem está apaixonado, ele senta-se ao lado dela, mas não muito perto, para não parecer atirado demais, nem muito longe, de modo a não ficar mais distante do que é estritamente necessário pela regra da boa educação.
Ela agora assume o ar de pensadora que antes esperou dele.
— O problema é que não temos como saber sempre se o que dissemos é bem ou mal.
Ele quer vir em socorro dela.
— Bem ou mal são substâncias, embora abstratas. Bom e mau, que são qualidades, exprimem-se também pelos atos e revelam o que somos; assim, preferimos em geral pensar que os bons praticam o bem e os maus praticam o mal; mas nem sempre a palavra é uma ou outra coisa, embora esteja ligada ao caráter quando proferida, e revele algo daquele que fala. Podemos pensar que o sentimento está intrinsecamente ligado ao que se é, de modo tal que aquilo que sentimos também deve dizer se o que falamos é bom ou mau e tem por origem, ou finalidade, bem ou mal.
— De onde você tirou isso?
Intrigada, uma parte da testa franzida, interessada no que ele diz, ela o embaraça de novo.
— No mesmo livro. Coisa antiga de minha família. Gosto de fuçar nessas coisas, embora não entenda muito. Mas serve para me dar conselhos, por exemplo, sobre tomar cuidado na hora de falar com os outros.
— Esse é um bom conselho! Mas se não nos dermos o coração na hora de falar, também não conseguimos nos comunicar com as pessoas.
É uma questão de coragem – que por dias tem faltado ao nosso herói. Mas enfim, é fácil ser corajoso diante do cadafalso; é fácil mesmo ser esquartejado por uma rainha que se sabe louca, mesmo quando se é acusado de, como revolucionário, ser dentista, e quando extrator de dentes, um revolucionário subversivo contra a coroa; é fácil até enfrentar um tanque de guerra em pleno comunismo chinês; mas não é simples, nem fácil, capitular diante do amor que não se sabe correspondido. O mais frágil no homem é este órgão acolhido no peito, protegido com tantas costelas – e menos uma ainda diante de quem pode tirá-las todas apenas para tomar o comandante das emoções humanas de um sujeito tão frágil cujos sentimentos apenas principiam a brotar, e já o fazem com a violência dos furacões tropicais.
Aí que a coisa se torna menos uma questão de enfrentamento do que de prudência. Pois, na prudência, ousadia pode ser atentada aliada ao saber, para, tornando-se em ato, atacar com todas as forças – e estar pronto à retirada caso, sem encontrar eco, o amor não seja bem respondido.
Não passou tanto tempo até que ele respondesse, pensativo:
— O problema é que o coração pode ser o único que se tem, e daí as coisas ficam cheias de nuvens.
É quando ela sabe ser mulher, apesar de menina: pois, carinhosamente, toma a mão do cavaleiro, que desmorona, e, olhando-o nos olhos, armadura desmazelada, escudo e espada por terra, cavalo com as patas quebradas e agonizante, derrotado antes mesmo da batalha, ei-la proclamando sua compaixão pelo vencido, e o exército todo naquela expectativa:
— As nuvens podem ser de algodão doce, anunciando a chuva de açúcar. É só olhar para o céu com olhos bem abertos.
Ele pisca; uma, duas vezes. Enrubesce. Sente o sangue lhe correndo pelo corpo, o coração ensaiando uma escola de samba em pleno carnaval, prestes a entrar no sambódromo. Aspira. Inspira. Expira. Suspira. Quase sem forças para respirar, prestes a queimar na pira olímpica, seu fogo sai pela boca antes que tenha tempo de refletir sobre os perigos de falar, conjugando na primeira pessoa do presente do indicativo o verbo amar, num ato pessoal que encerra para os homens a máxima coragem diante do sexo oposto.
— Amo-te.
A reação dela é quase imediata, dado o tempo que leva para aquilo ser ouvido, processado, entendido, e, enfim, palpitado pelo coração que recebe a mensagem de amor. Arregala os olhos, e, levando alguns segundos, aperta as duas mãos do rapaz, que, quase desfalecido, recebe o sorriso de correspondência dela como a vitória afinal, a primeira batalha pelo amor em uma vida que floresce.
Beijam-se a princípio timidamente, pois na verdade é ainda um ensaio; esperaram a vida inteira pelo contato dos lábios e agora é que descobrem de que se trata e das sensações que provoca, mal sabendo, de início, o que fazer a respeito. E certamente – não fosse a proximidade da escola e dos colegas – beijar-se-iam em ímpeto maior, coisa que certamente farão na melhor oportunidade, que em geral é a próxima.
Assim que, enamorados, enchem o peito, um e outro, e toca voltar para a sala de aula, pois o sinal do fim do lanche avisa que é hora de voltar para o lugar que acolheu o primeiro amor dos jovens.
Alguém então poderia levantar da plateia depois de se satisfazer com o amor alheio, e dizer: “mas que diabos, você resume o amor a uma declaração entre dois jovens que acabaram de se encontrar?”
O caso é, caros leitores e caras leitoras, que para amar basta o sentimento, e para preencher o amor é bastante boa a correspondência que o ser amado dá ao amante. Daí por diante, é amar e praticar o amor a dois.
Certamente que entre dois novinhos assim, que tanto se esforçaram e tanto sonharam o amor, a ponto de, mesmo sem o saber como grandes literatos, poderem pesquisar e criar uma paixão pela língua e por suas formas especiais de manifestação, é bastante recompensa simplesmente poderem se encontrar, nessa vida tão atribulada que, havemos de convir, nos dias atuais é absurda a ponto de tornar o amor em um sonho que tantas vezes se esvazia numa correspondência desigual, onde um toma do outro e vai-se embora sem mais.
O melhor do amor, na primeira oportunidade, é poder experimentar a beleza e a antecipação de toda essa coisa lírica que acontece entre os amantes; o que acontece depois raramente é da conta dos bisbilhoteiros, embora seja coisa que coletivamente reconhecemos, pois todos amamos algum dia, seja por um objeto vivo e palpitante, seja através de nossos sonhos, das linhas que lemos em algum lugar e que nos transportam ao universo da realidade psíquica na qual tudo é possível; seja, afinal, por um misto de ambas as coisas – o que pode ser vivido e o que pode ser imaginado. Pois não apenas a vida é um ato de relação com o que está fora, mas é também um exercício psíquico que faz o mundo interior encontrar no exterior formas com as quais pode se identificar em alguma medida, a ponto de conhecer a si mesmo.
Desse modo fecham-se as cortinas, e deixem os que amam a sós, que é o que, meus queridos, queremos, sempre que temos a oportunidade de amar e sermos correspondidos.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Vida Pública e Vida Privada

Ilton Norberto Robl Filho nos fala a respeito da "Condição Humana" de Hannah Arendt como base para seu discurso em seu livro "Direito, Intimidade e Vida Privada" (ed. Juruá. v. Bibliografia abaixo).
Em seu texto, nos informa o autor, entre outras coisas, sobre aquilo que (na Antiguidade Clássica Grega, segundo a visão de Arendt) torna o homem, em primeiro lugar, humano, e, a seguir, imortal.
Para discorrer a respeito, primeiro faz uma distinção entre eternidade e imortalidade: a primeira, envolvendo uma transcendência -- entre outras coisas, algo além da vida.
Já a imortalidade implica em uma comparação aos deuses gregos e à natureza, imortais em si mesmos, em meio aos quais vive o ser humano mortal. Nesse contexto, atingir a imortalidade é fazê-lo em vida, através da vida pública e não da vida privada.
De fato, a vida privada, com seus fatos que não fazem parte do que é público e de todos conhecido, não participa, em geral, da noção de imortalidade.
Ninguém conhece um "imortal" (também por isso assim chamado) da Academia Brasileira de Letras pelo modo como lê um jornal, ou por aquilo que consome no café da manhã. Se isso ocorre, é uma curiosidade, algo à margem da parte pública -- esta tornada imortal pelo discurso do humano, que foi, aliás, reconhecido pelo emprego da linguagem.
Em consequência, é através da vida pública (porém não de qualquer publicidade) que o ser se torna sucessivamente humano (assim reconhecido por seu discurso em meio a outrem) e imortal (pois reconheceu-se nele algo digno de ser propagado através dos tempos).
Assim, tornar-se um indivíduo publicamente conhecido implica em, primeiramente, ter seu discurso prosperando entre os outros -- encontrar ouvido e eco nas almas que compartilham da mesma humanidade.
Tornar-se, porém, imortal, implica em algo cada vez mais difícil nos dias atuais: é ser capaz de, além de tornar-se público, conhecido e reconhecido como humano, também ser capaz de contribuir para que todos possam avançar rumo à própria humanidade, e, em termos psicológicos, rumo à própria individuação.